terça-feira, 30 de novembro de 2010

AGORA É GUERRA

Agora é guerra
Sofia Cerqueira e Caio Barreto Briso
* Colaborou Lula Branco Martins


Blindados da Marinha entram no Complexo
da Penha: ofensiva em um dos principais
redutos dos traficantes
Em uma série de ataques, bandidos queimam veículos para provocar pânico entre a população. Enérgica e necessária, a reação da polícia foi invadir favelas à caça de criminosos. Com isso, deixou claro que o bem-sucedido programa de pacificação dos morros cariocas é um caminho sem volta. Na tarde de domingo (21), três automóveis foram parados por seis bandidos na Linha Vermelha. Armados de fuzis, os marginais obrigaram motoristas e acompanhantes a descer dos carros. Num gesto inesperado, atearam fogo em dois dos veículos e, antes de fugir, dispararam uma saraivada de tiros contra um utilitário da Aeronáutica que passava pelo local. Estava dada a senha para uma sucessão de ataques que transformou o Rio de Janeiro em um campo de batalha nos últimos dias. Tal qual em Bagdá, outras ofensivas semelhantes deixaram um rastro de mais de setenta carcaças carbonizadas pela cidade. Cabines da PM foram metralhadas na Zona Norte e bairros inteiros tomados por tiroteios, obrigando o comércio a baixar as portas e as escolas a liberar os alunos. Pelas ruas, uma sensação de insegurança generalizada. Parte da população entrou em pânico. Surpreendida com a ousadia dos criminosos, a polícia mudou sua estratégia e reagiu como deveria: de forma enérgica. Na quinta-feira, blindados da Marinha e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) invadiram a Vila Cruzeiro, na Penha, próximo ao Complexo do Alemão, conjunto de favelas que abriga alguns dos bandidos mais perigosos da cidade. Até o fechamento desta edição, cerca de quarenta criminosos haviam sido mortos e 65 suspeitos presos. Para quem ainda tinha dúvidas, os recentes episódios deram um claro recado aos cariocas: estamos em guerra. E não uma guerra qualquer. Trata-se do maior enfrentamento já ocorrido entre as forças de segurança e a bandidagem da história. “Vamos entrar lá e pacificar. O objetivo é esse. Não é entrar, ficar um tempo e ir embora. É entrar e ficar”, disse o governador
Sérgio Cabral a VEJA RIO, horas antes da invasão.

Sergio Moraes/Reuters





Bandido morto na última semana em Manguinhos (acima) e policiais com
crianças na UPP Pavão-Pavãozinho: ocupação de favelas já
libertou 215 000 pessoas do domínio do crime na cidade
Eduardo Naddar/Ag. O Dia


Até aqui, a ocupação de favelas dominadas pelo tráfico se realizou com baixa resistência por parte dos criminosos. Avisados da chegada dos policiais, eles se transferiam para outras áreas, especialmente o Complexo do Alemão, onde gozavam de relativa tranquilidade. Muitos morros foram retomados sem o disparo de um único tiro. Apesar das críticas, o cronograma da Secretaria de Segurança seguia no ritmo inicialmente estabelecido, sem a previsão de um confronto mais intenso neste momento. A ideia era formar mais soldados, pacificar outras regiões, a exemplo da Tijuca e da Zona Norte, para depois enfrentar os bandidos em seu reduto. Os incêndios cometidos nos últimos dias alteraram todos os planos. Atos de vandalismo, roubos de automóveis e desafios ao poderio policial já haviam acontecido antes. Desta vez, porém, a quantidade de ataques, o fogo nos carros, as imagens que rodaram diversos países soaram como provocação — e precisavam de uma resposta à altura. “O que estamos vivendo é uma reação desesperada das facções criminosas que perderam território, recursos financeiros e recursos materiais”, afirma Cabral. “Mas nós estamos imbuídos de uma missão: devolver ao cidadão o direito de ir e vir.”

» O avanço contra o tráfico

A explicação mais provável para os atentados, de fato, é a reação dos marginais à implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Espalhadas em doze morros, elas retiraram do domínio do tráfico de drogas cerca de 200 000 pessoas e alguns importantes pontos de venda. Sua expansão tem sido contínua desde 2008, quando a primeira delas foi implantada no Dona Marta, em Botafogo. Com os carros e ônibus queimados, os traficantes tentaram enviar uma mensagem: eles não gostaram do que vinha acontecendo e estavam dispostos a lutar para impedir a progressiva perda de terreno. Há três meses, os serviços de inteligência da polícia tiveram os primeiros indícios de que os criminosos tramavam algo. Em cartas interceptadas com familiares, os presos reclamavam do estrangulamento de seu lucrativo negócio e pediam aos asseclas para reagir. “As ordens vieram do presídio federal de Catanduvas, no Paraná, e de Bangu 3. De lá chegaram à Vila Cruzeiro e se espalharam”, diz José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública.

“Eles não estão depredando patrimônio público e privado por divertimento. Sua intenção é semear o medo. Isso se chama terror.”
Gilberto Sarfati, cientista político da FGV

Dentro dessa dinâmica, suspeita-se que o primeiro passo dos traficantes tenha sido promover arrastões de veículos em regiões nobres (a incidência desses crimes levou VEJA RIO a publicar uma reportagem de capa recente sobre o tema). Os ataques em série espalharam o pavor entre os motoristas, mas, como os bandidos levavam carros, celulares e carteiras, não estava claro se eram crimes comuns ou uma estratégia deliberada de desestabilização. Com os incêndios, a segunda hipótese ficou evidente. Afinal, não houve roubos, indício de que os atos tinham outros objetivos bem definidos: desafiar a polícia e atemorizar a população. Os criminosos foram bem-sucedidos em ambos. Na quarta-feira, dia em que a conflagração atingiu seu ápice nos subúrbios, diversas empresas liberaram funcionários mais cedo ou permitiram que trabalhassem em casa. Um caixote deixado em uma praça de Ipanema levou ao isolamento da área. O trânsito na Rua Visconde de Pirajá e vias vizinhas foi bloqueado e o artefato explodido. Constatou-se mais tarde que o tal caixote fazia parte de uma ação de marketing. “Não há como negar que os criminosos daqui têm motivação semelhante à dos grupos radicais de outros lugares do mundo”, analisa o cientista político Gilberto Sarfati, especialista em Oriente Médio e professor da FGV e do Ibmec. “Eles não estão depredando patrimônio público e privado por divertimento. Sua intenção é semear o medo. Isso se chama terror.”

Combater atentados dessa natureza é uma missão dificílima. Organizações com estrutura e recursos superiores aos da polícia carioca sofreram (e ainda sofrem) ao lidar com inimigos que agem nas sombras, parecendo brotar por todos os lados. Em 2005, as forças de segurança francesas foram humilhadas durante um levante étnico, em que imigrantes conduziram uma rebelião que culminou com milhares de carros incendiados. Até mesmo o poderoso Exército americano tem dificuldades para lidar com os insurgentes do Iraque, como mostrou o filme Guerra ao Terror. Guardadas algumas proporções, o caso do Rio de Janeiro tem mais semelhanças com a situação vivida pela Colômbia. No início da década, o governo daquele país empreendeu uma grande ofensiva contra os terroristas narcotraficantes das Farc, alojados nas maiores e mais violentas favelas de Bogotá e Medellín. Ousados, eles explodiam carros-bomba, assassinavam autoridades e controlavam boa parte do território. De certa forma, o modelo de lá foi o precursor das UPPs, com uma diferença básica: os colombianos não deixaram para atacar o quartel-general dos bandidos mais tarde. Logo na primeira operação, em 2002, foi invadido o complexo de Santo Domingo, onde viviam alguns dos criminosos mais perigosos. Depois de cinco dias, o lugar foi tomado e seus líderes mortos em confronto. “Em Medellín, a ação teve o objetivo de esmagar a cabeça da cobra entrando direto no pior foco”, diz o colombiano Ricardo Vélez-Rodriguez, especialista em segurança. “No Rio, a opção foi começar nas favelas menores, o que por um lado facilita o trabalho, mas permitiu uma maior tranquilidade aos traficantes.”


Ataques na França em 2005 (no alto)
a libertação da refém Ingrid Betancourt na Colômbia e patrulha americana no Iraque (abaixo): desafios no combate ao terrorismo
Francois Mori/AP Photo
Rodrigo Arangua / AFP Photo
Ali Al-Saadi/AFP Phot

Com a invasão da Vila Cruzeiro, o cenário agora muda radicalmente. Em uma área de 3 quilômetros quadrados, onde vivem 65 000 moradores, o Complexo do Alemão é formado por treze favelas que se estendem pelos bairros de Penha, Inhaúma, Olaria, Bonsucesso e Ramos, na Zona Norte. Famoso pelas violentas batalhas entre as principais gangues que disputam o controle do tráfico, o conglomerado de barracos é considerado a principal fortaleza e o entreposto de drogas da maior facção criminosa da cidade. Com o início da política de implantação de UPPs, há dois anos, tornou-se uma espécie de refúgio de traficantes expulsos de outros morros. Recentemente, bandidos vindos do Jacarezinho, de Manguinhos e da Vila Kennedy passaram a negociar drogas e armas com distribuidores e fornecedores diretamente em barracas montadas no Largo dos Coqueiros, na parte alta do complexo, naquilo que ficou conhecido como Feira Livre do Tráfico. Investigações feitas pelo departamento de inteligência da polícia revelam que existem na região cinco bunkers pertencentes aos chefes do crime, protegidos por quadrilhas armadas com pelo menos 200 fuzis e metralhadoras antiaéreas. “Ali é o centro do mal. Leia-se Elias Maluco e Marcinho VP. Toda a origem do pânico na cidade. Portanto, vamos cortar o mal pela raiz”, promete Cabral.

Em meio ao terror dos últimos dias, algumas críticas tresloucadas às UPPs começaram a circular pela internet. Por causa dos ataques, chegou-se a defender a situação que existia anteriormente, em que os traficantes cuidavam de seus negócios, sem interferir na vida do asfalto. Muitos oportunistas aproveitaram para fazer a apologia da “falsa paz”, em que a tranquilidade é apenas aparente e pode ser rompida de maneira desastrosa a qualquer instante. Aliás, foi o que aconteceu durante quase três décadas, quando as autoridades preferiam entrar em um acordo com os bandidos, deixando-os livres para cuidar de seus interesses, e, com isso, diminuindo índices como roubo de carros e sequestros. Deu no que deu. Voltar para essa situação, ainda mais com a perspectiva de sediar uma Copa e uma Olimpíada, é absolutamente inaceitável. “Estamos apostando em um modelo que tem dado resultados”, diz Beltrame, sobre as UPPs. Com dezessete ameaças de morte desde que assumiu o cargo, há quatro anos, ele é a face heroica dessa guerra. Almoça sempre na secretaria e recebe a visita da família nos intervalos entre uma reunião de trabalho e outra. Sob o seu comando, o estado avançou em organização e aparato. Hoje, as forças de segurança dispõem da mais sofisticada rede de equipamentos de escuta e monitoramento de criminosos disponível na América do Sul. Os profissionais da área, que espionam constantemente contas de Orkut e Twitter, contam com uma ampla rede de informantes nos morros. Em breve, um novo helicóptero blindado deve ser incorporado à frota.
O secretário Beltrame (acima) e Marcinho VP, um dos chefes do
tráfico no Complexo do Alemão: luta sem trégua contra os marginais
Fernando Lemos
Alexandre Vieira/Ag. O Dia

De fato, nem a oposição política do estado pode negar os avanços e benefícios que as UPPs promovem. Símbolo do programa, o Dona Marta vive hoje uma outra realidade. Sem nenhum homicídio registrado nos últimos dois anos, a favela teve suas vielas nomeadas e seus casebres numerados. A ação, elementar, reinseriu 6 000 pessoas no mercado consumidor. Agora, elas têm conta de luz e podem abrir um crediário nas grandes redes de varejo. Na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, a Escola Municipal Pedro Aleixo, que antes da ocupação tinha um ponto de tráfico nos seus arredores, registrou aumento de 30% na frequência de alunos e de 40% nas matrículas. Evidentemente, as drogas ainda existem nessas duas localidades (assim como na Zona Sul do Rio e nos Jardins, em São Paulo). Mas, entre outros enormes benefícios, o ambiente para a mobilidade social desses favelados começou a ser construído. No passado, um vendedor de salgados e bebidas dificilmente poderia estabelecer em tais lugares um ponto de venda decente, com loja, mesinhas e cadeiras, sem ser incomodado ou dominado pelos traficantes. “A questão da segurança pública tem importância econômica também”, aponta Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil e ex-secretário municipal de Habitação. “Os grandes investimentos são importantes, mas a proliferação dos pequenos empreendedores é que trará o desenvolvimento consistente.” Por isso, a recuperação desses territórios precisa ser definitiva. Baixas acontecerão, novos atentados também, mas para o Rio e seus cidadãos de bem não há outra saída

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