terça-feira, 25 de janeiro de 2011

RECOMEÇO A PARTIR DO ZERO

Marino Azevedo/Governo do Estado do Rio de Janeiro

Máquinas trabalhando na remoção de lama em Teresópolis: obstáculos à reconstrução

26/01/2011
Chuvas
Recomeço a partir do zero
Letícia Pimenta

Por que recuperar a Região Serrana é um trabalho que pode demorar mais de dois anos e custar bilhões de reais

O cenário ainda é de devastação. Dezenas de tratores, retroescavadeiras e caminhões trabalham na remoção de 9 000 toneladas de lama e detritos que cobrem avenidas e ruas de Teresópolis, Petrópolis e Nova Friburgo, as cidades serranas mais devastadas pelos temporais de janeiro. Enquanto isso, carros da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros recolhem corpos e buscam sobreviventes em meio aos escombros. Quase duas semanas depois da enchente que deixou 700 mortos, a tragédia está longe de virar uma lembrança distante para quem perdeu tudo ou mesmo para aqueles que só assistiram ao drama pela TV. As marcas do caos ficarão por muito tempo não apenas na memória, mas pelas ruas desses municípios. Os cálculos mais otimistas sugerem que a reconstrução da região demorará até dois anos, prazo para que sua infraestrutura básica volte a funcionar. Com um detalhe importante, que torna toda a operação muito mais complexa: diversos procedimentos terão de ser implementados pela primeira vez e conceitos como planejamento e organização incorporados à rotina das autoridades. “Esta é a hora de repensar toda a ocupação do espaço urbano, de forma criteriosa e sem concessões”, diz Leonardo Braga, mestre em defesa e segurança civil pela Universidade Federal Fluminense.

Em outras palavras, recomeçar praticamente do zero. Como forma de prevenção, o primeiro passo será um levantamento geotécnico sobre as condições do solo, uma maneira de evitar novos desastres. É fundamental classificar cada terreno, cada propriedade, de acordo com sua resistência aos temporais, mapeando as zonas de risco. Caso contrário, a recuperação de estradas, pontes e avenidas pode terminar com as próximas chuvas. Nesse processo, preservar as margens dos rios é uma medida crucial. Em vez de casas, somente parques e ciclovias podem ser edificados ao longo dos leitos. Além das restrições na construção, toda a região precisa passar por uma transformação da sua malha de esgotos e no recolhimento do lixo. Hoje, apenas 30% das residências de Nova Friburgo dispõem de saneamento básico. Em Petrópolis, esse índice sobe para 60%, mas em Teresópolis, a mais atingida entre as três, não existem tratamento de esgoto nem rede interligada. Até os imóveis localizados nas áreas mais nobres lançam, através de um sistema de canalização próprio, os dejetos nos rios. “O plano diretor desses municípios precisa ser aplicado com rigor. Está provado que proteger comunidades pobres para ganhar voto não dá certo”, afirma Jorge Henrique Prodanoff, professor do departamento de recursos hídricos da Escola Politécnica da UFRJ.

Em paralelo, a reativação da economia precisa ser estimulada. Como se trata de uma situação extrema, a contratação de mão de obra local, uma ideia de inspiração keynesiana (John Maynard Keynes, economista inglês, 1883-1946), pode funcionar. De todas as atividades, a agricultura foi a mais prejudicada pelo temporal. Com a ruptura da produção, os pequenos produtores são os primeiros a passar necessidades e os que vão demorar mais tempo para se recuperar economicamente. Empregá-los nesse esforço de reconstrução pode aliviar as dificuldades e ajudar, em um primeiro momento, a aumentar a renda. O turismo, um dos principais motores do desenvolvimento na região, deve ser tratado com especial atenção. Pousadas instaladas em áreas de risco podem ser erguidas em lugares mais próximos ao centro. A medida não impede que os espaços de natureza exuberante, antes ocupados, sejam explorados com segurança pelos visitantes por meio de passeios e trilhas. “Sem a economia como mola propulsora, o processo pode demorar ainda mais”, diz Leonardo Braga.

Depender apenas do dinheiro do governo, nesses casos, pode ser uma armadilha. Experiências semelhantes mostram que o sucesso da operação esbarra sempre no mesmo ponto: a falta ou demora no repasse dos recursos. O roteiro se repete. Logo após as chuvas, a comoção provoca arroubos de generosidade e os governantes prometem grandes somas. Passado algum tempo da catástrofe, a lentidão predomina. Dos 425 milhões de reais previstos em programas dessa natureza, o Ministério da Integração Nacional só aplicou 167,5 milhões no ano passado. Desse total, o estado do Rio, que experimentou desastres em Angra dos Reis e Niterói, recebeu apenas 0,6%. Desta vez, calcula-se que sejam necessários 2 bilhões de reais para reerguer a infraestrutura local. A questão é que, sozinhas, as administrações municipais não têm capacidade técnica, financeira nem administrativa para tocar um projeto tão caro e complicado. Somados, os orçamentos anuais das três prefeituras não chegam a 260 milhões de reais, cerca de 10% do necessário.

Lee Celano/Reuters
Show de jazz em Nova Orleans, cidade afetada pelo furacão Katrina em 2005: as obras consumiram 61 bilhões de dólares


Embora de difícil execução, uma recuperação de tal magnitude é possível. A cidade de Nova Orleans, nos Estados Unidos, sofreu uma catástrofe de proporções semelhantes em 2005. Com ventos de mais de 235 quilômetros por hora, o furacão Katrina derrubou casas, escolas e hospitais, deixando um saldo de mais de 1 000 mortos. O desastre provocou queda das barreiras do Rio Mississippi, que inundou 80% do município. Na ocasião, a ineficiência da prefeitura, que não tinha um plano de evacuação, e a demora do governo federal no socorro às vítimas mancharam ainda mais a imagem do presidente George W. Bush. Mas, aos poucos, a vida seguiu seu curso. As redes elétrica, de esgoto, gás e telefonia foram restauradas. Bairros abaixo do nível do mar tiveram de ser realocados em outras áreas. Durante os três meses de limpeza de Nova Orleans, apenas autoridades de saúde e policiais recebiam permissão para entrar na cidade. Cinco anos e 61 bilhões de dólares depois, as pessoas se preparam para comemorar o Mardi Gras, o Carnaval local. Por aqui, temos um longo caminho a percorrer.



Nenhum comentário: