quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"PREFEITO" INFORMAL CALCULA AUMENTO DO CUSTO DE VIDA NO ALEMÃO DO PODER PÚBLICO

Arthur Guimarães
Enviado especial do UOL Notícias
No Rio de Janeiro

Correspondências organizadas para distribuição pela associação dos moradores da Fazendinha, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro

Com a entrada do poder público no Complexo do Alemão, região antes dominada por traficantes, os moradores das favelas da região já começam a calcular qual será o aumento em seu custo da vida Junto com a liberdade, os habitantes dos morros até então comandados pelo Comando Vermelho ganharam também a perspectiva de começar a pagar em breve os tributos municipais cobrados no restante da cidade.
Wilians Silva, 40, presidente da Associação dos Moradores da Fazendinha, tido como uma espécie de “prefeito” informal da Fazendinha, um dos bairros invadidos pelas forças do Estado no último domingo no Alemão, já é procurado por outros moradores para somar as contas extras que deverão ser enviadas para os endereços do complexo, que agrega cerca de 30 mil casas.

Sob o domínio do crime, a maioria não pagava luz, água ou o Imposto Predial Territorial e Urbano (IPTU). Tinham ajuda até para receber televisão a cabo e internet de forma ilegal, no chamado “gato net”.

Segundo Silva, no entanto, os valores programados para os perfis médios de residências na Fazendinha não devem ser muito altos: aproximadamente de R$ 40 mensais, valor que pode subir para cerca de R$ 90 ao mês se o morador tiver ponto de internet e televisão a cabo em casa.
"A Light diz que a tarifa social fica em R$ 25. Para receber água e ter sistema de esgoto, teremos que pagar cerca de R$ 15 para um uso médio daqui, com cobranças extras para quem exceder o consumo. E as propostas aqui são de R$ 40 anuais para o IPTU”, contabiliza. “Eu pago hoje R$ 48 por mês com internet e TV a cabo, mas só tenho os canais básicos.”
Não estão inclusos no cálculo de Silva eventuais pagamentos por iluminação pública, melhorias viárias ou de calçamento nem abastecimento de gás - hoje feito apenas por botijões. Nem há estimativa oficial para o início da cobrança dos tributos citados na reportagem.

Um prefeito diferente

Silva presta diversos serviços para a população local. Recebe todas as cartas do bairro pelos Correios e contrata dois “carteiros” para fazer as entregas aos 650 associados, que pagam R$ 5 mensais – quem não é associado deve ir até a sede da associação buscar seus envelopes.
A entidade também tem um “faz-tudo” que “arruma canos entupidos” e “cuida da energia”, um servidor extra-oficial que anda uniformizado com uma camiseta que leva o logotipo da associação. “Mas me procuram para tudo, até para apartar briga”, diz ele.
Silva, no entanto, é um “prefeito” diferente. Apesar de eleito em votação popular, ele não aceita posar para foto, não tem guarda municipal cuidando de sua porta e a rua em frente à sede da entidade é puro barro.
Ciente do risco que corre ao fazer muito barulho reclamando do tráfico, ele não gosta de imagens. Também não pode usar segurança, pois, ali, só os criminosos podem circular usando armas. “Minha relação com o tráfico é assim: eu aqui e eles ali”, desconversa.
Com uma postura sempre receosa, especialmente quanto atende a imprensa, ele prefere não responder se a invasão do Estado é positiva ou negativa. De toda forma, ele é rápido quando questionado se tem medo de perder poder com uma eventual urbanização dos entornos. “Não estou preocupado em perder, mas quero que a comunidade ganhe.”

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